Erico Lima Schuch

Um blog sobre a prĂ³pria internet

O quarto elemento

September 21, 2020 — Erico Schuch

A muito tempo tenho notado uma tendência, polarização nas redes sociais.

Mas porque essa polarização existe, como é criada, para que serve, quais consequências e como poderia ser evitada? Vamos por partes, uma pergunta de cada vez.

  • Redes sociais são gratuitas?

As redes sociais existem porque anunciante paga para você ver o anúncio dele. Aproximadamente em 2010, grandes grupos de interações digitais começaram a utilizar de IA para monitorar e provocar interações de pessoas na rede social para que mais e mais anúncios pudessem ser vistos e consequentemente, vendidos.

Mas biologicamente o ser humano não é movido por felicidade, nem por alegria. O ser humano é, historicamente, movido a medo e guerra. Só pensar que em toda a história da humanidade apenas nos últimos 30 anos tivemos uma paz razoável onde o mundo todo não estava brigando e com medo, mesmo assim com pontas de guerras que pareciam que explodiram ao mundo todo.

Mas o que faz esse medo? Este medo provoca o ser, levanta nele a necessidade de se informar, de procurar mais dados de quem está atacando, quando, como, porquê e o que deve ser feito para se proteger. O medo gera interação. E a IA entendeu isso. E qual melhor forma de gerar interação do que polarizar um grupo em dois? Então a polarização que vivemos é tudo culpa de uma IA burra e cega? Nem tanto.

  • Mas quem é o culpado?

Bom, se a IA foi criada para gerar visualizações em anúncios nos próprios sites das redes sociais, quem será o culpado? A grosso modo, toda a cadeia de consumo desta rede:

  1. O anunciante por pagar por isso, sendo indiferente ao problema;
  2. A rede social, pois mudar algo que foi planejada exatamente para isto, gerar interações, pode significar em reduzir a receita.
  3. O usuário, que mesmo sem saber, empresta seu tempo para o anunciante, pela justificativa de ver, ler algo interessante.
  4. Há ainda um 4º elemento nesta cadeia, que este sim pode ser o mais perigoso de todos, alguém/algo que entende o processo e usa essa tecnologia para objetivos não tão evidentes.

Este 4º elemento é difícil de identificar, geralmente não age sozinho, mas faz um grande estrago. E é sobre esse 4º elemento que gira toda esta discussão.

  • Esse 4º elemento é um X que quer fazer Y contra meu Z e ...

Calma, calma. Não é tão simples assim. Claro, se não era pela imanência das redes sociais, o 4o elemento nunca existiria. Sim, as redes sociais podem e deveriam evitar a propagação de notícias falsas, e elas até tentam, mas é pouco perto do que ocorre. Mas elas não são a única culpada pelo 4o elemento. Pode ser que o 4o elemento nem exista, seja apenas uma forma de IA, ou até exista mais não está claro a ele que ele seja o 4o elemento pois está sendo alimentado pela própria IA na sua toca de coelho ou pior ainda, pode ser que seja um grupo de pessoas, que entendem como a IA de mídias sociais funcionam e estão inadvertidamente provocando essa rede para que haja engajamento e assim consiga manipular para um objetivo. Mas isto é muito fantasioso. Prefiro acreditar apenas na 1a possibilidade.

  • Então o 4o elemento é algo ou alguém que influencia as mídias sociais para obrigar elas a fazerem algo na esperança que isto gere engajamento. Mas como saber se não estamos sendo manipulado igual aos (outro grupo X que não me identifica o qual eu classifico a todos que não pensam igual a mim)?

Eu falei que acredito na possibilidade apenas de ser um desleixo intencional das redes sociais. Mas você pode notar o 4o elemento assim mesmo. Criando narrativas que não existem.

Se você faz parte de um grupo e está certo que exista outro grupo e que você é esperto por participar deste grupo e outros são burros, ou qualquer que seja a polarização criada para tal, você está sendo influenciado, de qualquer forma. Algumas dicas que fazem pensar se está ou não sendo objeto de manipulação de uma IA em que cada SIM aumenta o grau que você está sendo manipulado:

1 - Você usa redes sociais? Conta em qualquer plataforma? Twitter, Google, Facebook, Snapchat, Whatsapp etc?

2 - Você faz parte de um grupo na internet de pessoas inteligentes e sabem a verdade, enquanto outros estão perdidos e são alienados pois estão sendo manipulados e somente você vê a verdade?

3 - Você acredita que há um grupo do bem (o seu) e um do mal (que não é o seu)?

4 - Você acredita que o grupo do mal quer destruir seu grupo do bem?

5 - Você acredita que para conter o grupo do mal pode ser utilizado de meios ilegais pois assim eles são e agem, ilegalmente?

6 - Você sabe que existe uma conspiração no grupo do mal e que se não for contida, usarão forças bélicas como armas ou outros meios letais e sendo assim, há um risco de vida iminente e evidente que deve ser respondido com armas e forças bélicas também para salvar a vida do grupo do bem?

7 - Já estamos em guerra mas o grupo do mal está escondendo tudo isso.

Do 1 para o 7, quando você parar de responder SIM, vai ser o nível de manipulação que está sofrendo. Sugiro a excluir imediatamente todas as redes sociais se você chegou ao nível 5 e assim ficar até entender como as redes sociais funcionam ou até as empresas de mídias sejam multadas/banidas/regulamentadas no nosso país.

Não, não é uma afronta a constituição, ou liberdade de expressão, ou grupo X ou Y. É apenas a realidade. De verdade. Que ninguém nunca contou para você. Nem do grupo X nem do grupo Y.

  • Não existe isto. Não sou de grupo nenhum. Os outros é que são contra.

A negação afirmativa: Eu não estou, mas os outros sim. Isto é a maior prova que você sim está. Pois você está vendo esse outro que não existe. Que foi criado por uma IA para te alimentar.

  • Mas qual o mal disso?

Nenhum se for algo natural e pequeno. Você pode ser levemente bombardeado por informações que causem irritação, intimidação ou raiva, mas em pequena escala, o que não causa malefício inicial algum. O problema é quando um grupo descobre que existe este meio, e ele pode ser manipulado, e esse grupo passa a agir como o 4o elemento.

  • Mas o 4o elemento é um grupo? Uma pessoa?

Não. Mas pode ser. Agora vamos trabalhar em suposições abstratas.

Para iniciar, precisamos de uma pessoa do meio do objetivo, mas de preferência sem uma relevância inicial, assim ela será moldada de acordo com os acontecimentos. Vamos chamar essa pessoa de indivíduo.

Também precisamos de 2 grupos. Chamaremos de grupo do bem e grupo do mal.No grupo do bem colocamos coisas boas: família, trabalho, honestidade. No grupo do mal, colocamos o resto: ladrão, individualismo, drogas, vagabundo.

Precisamos também de falas "lacradoras": Pequenas falas contrariantes, de efeitos, utilizados para terminar a discussão de um adversário. Muitas vezes a pessoa nem sabia que era adversário e foi usado, ou apenas a pessoa ficou quieta por se sentir desrespeitada e ofendida. No final de uma frase lacradora é só jogar seu adversário no grupo do mal que uma legião de seguidores imitará tal qual uma criança menor imita seu irmão maior. Ou você é do bem e lacre, ou é do mal e é lacrado.

Coloque isto nas mídias sociais, com reforço de uma mídia comum (TV aberta, tipo CQC ou algum outro programa humorístico tido como cool) e logo por reforço da IA as mídias sociais começam a separar os grupos.

Quem clicar curtir será enaltecido pelos iguais e fará parte do grupo do bem. Quem não curtir, será colocado no grupo do mal.

  • Bom. Até o momento, só temos frases de efeito e likes. Mas isso não fica por muito tempo né?

Neste momento há um engajamento. Este engajamento só pode ser desfeito pelos seus próprios participantes, que vão aos poucos perdendo o interesse. Pessoas comuns perdem o interesse pelo comum. Mas como não ser comum? Criando a crença. Somente a crença é perfeita para isto. Somente a crença é cega. Mas como se faz isso? Criando-se uma mídia paralela que vai tão somente enaltecer os acertos e vai abafar os erros. E para isto é simples. Joga a mídia normal no grupo do mal. E deixa a propria midia de divulgação paralela florescer. Bom, neste ponto em diante, o grupo do bem não vai mais olhar para as informações do grupo do mal. E assim aumentar seu engajamento, e assim perpetuar sua força. Cria-se a crença.

  • Mas e se ele errar?

Bom, neste ponto, com o engajamento nas alturas, com um grupo cativo, uma mídia tortuosa, com recursos, a única coisa que o indivíduo não pode fazer é errar feio.

E para isso quando o indivíduo precisa tomar uma decisão que pode ser desastrosa, a midia tortuosa fica encumbida de criar uma cortina de fumaça: Informação que não é falsa, mas não tem relevância nenhuma, para que os engajados tenham o que se alimentar e se engajar e permanecer na sua toca de coelho. E assim não enxergam o que está acontecendo ao seu lado. Passado algum tempo, esta mesma ação tomada pelo indivíduo se acalma na rede do mal, e é criado uma narrativa positivista (mesmo que mentirosa) na rede do bem. Ou seja, a rede de informação do mal não chega ao engajado pois a atenção dele era para a cortina de fumaça. E quando a rede do mal para de falar, é hora a rede do bem trazer a narrativa positivista (mesmo que falsa ou distorcida) sobre o assunto. Assim o engajado acredita piamente na informação que lhe chega pois faltam outras fontes. Ele absorve somente uma narrativa do assunto, e assim aumenta o engajamento e afunda-se ainda mais na sua toca de coelho.

  • Mas quem usaria isso?

Interesses escusos são utilizados por grupos escusos. Nada mais passa a minha cabeça.

  • Como faço para me livrar disto?

1 - Saia das mídias sociais ou use elas para fins estritamente profissionais.

2 - Desligue qualquer notificações do celular.

3 - Nunca clique em algo recomendado (Youtube, Facebook, Twitter).

4 - Use pesquisas alternativas e se for para usar sites como MSN ou GOOGLE, use navegadores em modo anônimo.

5 - Pense que se você não paga pelo produto, é que VOCÊ é o produto.

6 - Desligue o celular.

7 - Assine 2 jornais (mesmo que semanais) impressos, de fontes diferentes e leia TODO!

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